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Suíça Referendo avalia uniões ‘gay’ May 30, 2005

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Os suíços vão às urnas no domingo para participarem nos referendos sobre o Acordo de Schengen com a União Europeia e o estatuto dos casais homossexuais, assuntos que estão a causar polémica e a dividir a sociedade. O acordo de Schengen, assinado entre a Suíça e a UE, tem sido apontado como o fim da segurança no país.

Publicado no Diário de Notícias.

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Corpos de bebés “em lixeiras” May 30, 2005

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Críticas. Reitor do Santuário de Fátima escreve texto cáustico

Por João Figueira

O reitor do Santuário de Fátima, Luciano Guerra, lançou um conjunto de críticas sem paralelo na Igreja portuguesa contra os casamentos entre homossexuais e a despenalização do aborto. “Os contentores de resíduos hospitalares vão transbordar de crianças mortas”, afirma no editorial do último número do jornal “Voz de Fátima” Luciano Guerra, para quem “o aborto clandestino sempre acontecerá, porque ainda acontece nos países que o despenalizaram”.

Sob o título “Grandes rombos na Europa”, o reitor do Santuário escreve que “corpos esquartejados de bebés vão aparecer em lixeiras de toda a espécie ao olhar horrorizado ou faminto de pessoas e animais”. Mais estas imagens, sustenta o mesmo responsável, “serão mais numerosas à maneira que o aborto deixar de ser considerado crime”.

As suas críticas estendem-se, ainda, ao facto de as mulheres que abortam recorrerem aos hospitais públicos, “onde teoricamente tudo se faz de graça, mas onde as listas de espera continuam a ser regra, até em urgências mais urgentes que acabam na morgue”.

Face ao quadro por si desenhado, monsenhor Luciano Guerra entende que “talvez já tarde dar-nos-emos conta de que, não podendo evitar todos os sofrimentos, há que ter dó antes de mais dos inocentes assassinados sem chegarem ao menos a ver a luz do sol”.

O reitor do Santuário ataca, também, o Parlamento europeu, que “amanhã poderá impor a união entre homossexuais”. Daí admitir como possível que, “dentro de pouco tempo, tenhamos visitas de Estado ao mais alto nível, em que uma rainha, talvez sem herdeiros, dará o braço a outra senhora com estatuto de esposa, ambas de mão na mão, e o Presidente barbudo de uma grande República se fará acompanhar maritalmente de um outro cavalheiro que pode ser (sem ironia!) o presidente do Parlamento”.

Publicado no Diário de Notícias.

Boda gay em programa infantil suscita controvérsia May 27, 2005

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Espanha

A directora da estação pública espanhola foi chamada a a dar explicações pelo Partido Popular, em pleno Congresso, sobre a referência a um casamento homossexual no programa infantil “Los Lunnis”.

O espaço intitulado de “Bodas diferentes”, que foi para o ar na semana passada, mostrou uma peça, a terceira do programa, em que um dos pares era constituído por dois homens. O primeiro exemplo mostrava um estrangeiro a casar com uma espanhola e o segundo a união de noivos catalães segundo rituais antigos.

Carmen Caffarel, directora da RTVE, teve ainda de explicar os critérios que tem tido na escolha da grelha e a exibição de um documentário sobre o PSOE, partido no poder, emitido recentemente no segundo canal, em horário nobre. As prioridades nos gastos e a questão das audiências mereceram igualmente questões por parte do partido da oposição.

Publicado no Jornal de Notícias.

El País Retirado encarte ‘homofóbico’ May 27, 2005

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O jornal espanhol El País anunciou ontem que mandou retirar um encarte publicitário “homofóbico” que saiu na edição de quarta-feira devido a “uma falha dos sistemas de controlo”, provocando uma avalanche de protestos. No encarte, editado por uma associação de “Pais e Mães de Espanha”, faz-se campanha contra a lei que autoriza o casamento e a adopção pelos homossexuais, a qual deve entrar em vigor a 21 de Junho.

Publicado no Diário de Notícias.

A síndrome de Viseu May 14, 2005

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Por Miguel Vale de Almeida

Os acontecimentos homófobos de Viseu apelam a uma reflexão sobre como a sociedade portuguesa, neste início de ciclo político socialista, deve lidar com a discriminação e a desigualdade com base na orientação sexual. Em Viseu ocorreu uma manifestação mais violenta e publicitada daquilo que é o quotidiano de muitos gays e lésbicas, alvos sistemáticos de insulto, silenciamento, invisibilização, hipocrisia, exclusão familiar, chantagem laboral, medicalização, perseguição religiosa e menorização social e política em geral.

Se os acontecimentos de Viseu são a ponta do icebergue da homofobia, importa saber como esta pode ser combatida. O primeiro passo tem sido dado pelo movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais). Mas a obrigação é também do Estado, que deve assumir (basta ler a Constituição…) que a homofobia é uma forma de discriminação tão grave quanto o sexismo e o racismo e que todas elas são geradoras de desigualdades no plano socioeconómico. A mudança de mentalidades que leve ao fim do “nojo” pela homossexualidade tem à sua frente um longo caminho. Passa pela aposta na educação, na visibilização mediática e noutros processos de transformação cultural. Mas nada disso pode sequer começar a acontecer se não houver, primeiro, mudanças legais que garantam os direitos e tenham um efeito pedagógico sobre a sociedade. Um enorme passo foi dado recentemente no campo da igualdade formal: a Constituição, no seu artigo 13º, passou a incluir a orientação sexual como uma das razões pelas quais ninguém pode ser discriminado. À luz desta alteração, a constitucionalidade de algumas das nossas leis fica posta em causa, nomeadamente o articulado do Código Civil que impede os gays e as lésbicas de se casarem. Como já se percebeu em Espanha, a simples alteração da redacção daquele Código, deixando de referir o sexo dos cônjuges, constitui um passo imprescindível para a equiparação legal e para a garantia da dignidade plena dos gays e das lésbicas (e de toda a sociedade). O acesso ao casamento por casais de pessoas do mesmo sexo constitui agora a mais corajosa forma de combater a homofobia, devido à importância simbólica da instituição do casamento (no mundo tal qual existe hoje para as pessoas de hoje). Mais do que melhorias na lei das uniões de facto, mais até do que uma eventual lei anti-homofobia. Seria o fim do apartheid.

Os sectores mais conservadores, desde logo a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), consideram o casamento entre pessoas do mesmo sexo uma aberração e uma contradição em relação à sua noção de “matrimónio”. Muitas das suas afirmações são puro insulto homófobo, mas têm o direito de aplicar as suas regras aos seus casamentos religiosos. Só que, tal como o Estado não interferirá nas regras matrimoniais religiosas, tão-pouco a ICAR poderá interferir na regulação do casamento civil. Aparentando maior moderação, os sectores políticos conservadores tendem a propor, em vários países, ou uma designação diferente para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou figuras jurídicas alternativas como o Pacs (Pacto Civil de Solidariedade) francês. Esta posição é inaceitável: alguns cidadãos, os heterossexuais, podem escolher entre as várias figuras, enquanto outros, os homossexuais, não podem escolher casar.

No campo anti-homófobo, em larga medida coincidente com os sectores progressistas, as posições são diversificadas. Há quem ache que é preciso esperar por uma maior mudança das mentalidades para poder exigir o casamento; há quem, com argumentos baseados nalguma crítica radical (ou fundamentalista?) do patriarcado, ache o casamento em si mesmo uma instituição a não promover; há até quem ache que uma suposta rebeldia homossexual não se coaduna com a “imitação” do casamento heterossexual – como se nós, gays e lésbicas, tivéssemos que ser uma espécie de bobos da corte.

Estes argumentos supostamente progressistas contra o casamento (ou que secundarizam a reivindicação) revelam vários equívocos. O casamento mudou na lei e na prática (e pode e deve mudar mais) graças às alterações nas relações de género e nas formas de família. Obter o direito ao casamento para casais do mesmo sexo é modificá-lo ainda mais no sentido democrático, como sucedeu com a obtenção de igualdade entre homens e mulheres. Uma posição crítica em relação à instituição do casamento não é contraditória com a defesa da igualdade de direitos – da possibilidade de pessoas do mesmo sexo se casarem se o quiserem. Mas há mais: a exigência do direito ao casamento constitui um teste fulcral à homofobia no plano da sociedade, da política e do Estado: porque revela a enorme contradição entre, por um lado, elogiar o casamento como instituição “nobre” por excelência e, por outro, impedir o acesso a ela por uma parte da população (o que significa acreditar que as pessoas homossexuais têm algo de errado). Basta ver como as reacções anticasamento surgiram durante a campanha eleitoral, ferozes e mais sonoras do que a própria reivindicação.

Nas hesitações quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo pressente-se a síndrome de Viseu: o casamento torna evidente, demasiado evidente, a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo; legitima-a, no quadro actual de referências culturais, e relativiza a heterossexualidade, que de normativa passa a ser uma entre outras. Parecendo “conservadora”, a reivindicação é verdadeiramente “revolucionária”. E parecerá um dia, como hoje em Espanha, tão evidente e “simples” como ter exigido em tempos o direito de voto para as mulheres (apesar de a democracia do voto ter sido considerada por muitos “burguesa” e não-participativa…). O movimento LGBT e os partidos políticos (sobretudo da esquerda) deveriam olhar com atenção não só para o que está a suceder em Espanha, como para a História: as lutas mais dignas e entusiasmantes sempre foram as lutas pela igualdade plena de direitos.

Antropólogo, activista LGBT, membro da mesa nacional do Bloco de Esquerda

Publicado no Público.

“Rosto ‘gay’ do PSOE” May 2, 2005

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Entrevista

“A lei que irá permitir os casamentos homossexuais em Espanha é uma reforma do Governo que não vai contra nada nem contra ninguém. Trata-se apenas de uma exigência social, que consagra um direito de igualdade e que regulariza uma situação que já existia. É um triunfo do Estado de direito, da razão e da liberdade individual.”

Foi assim que Pedro Javier Zerollo, vereador socialista na Câmara de Madrid, reagiu, quando o DN lhe pediu que se pronunciasse sobre as razões que levaram o PSOE e o presidente do Governo espanhol a avançar com este tipo de legislação. “Como dizia o poeta ‘Todos temos de ser pedacinhos de um enorme plural.'”Homossexual assumido, ou o “rosto gay do PSOE” como os media espanhóis lhe chamam, Pedro Zerollo foi o antecessor de Beatriz Gimeno na liderança da Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais.

Talvez por isso fale com tanto entusiasmo do tema, mesmo que o seu discurso seja politicamente mais partidarizado, ao contrário de Beatriz Gimeno. O que talvez se possa compreender melhor se pensarmos que Pedro Zerollo foi uma das pessoas que levaram José Luis Zapatero a assumir esta causa.

“Acabou mais uma discriminação”, diz Zerollo, comparando a legalização de casamentos homossexuais ao fim da escravatura e ao direito de voto das mulheres, entre outros exemplos. “Além do jámon, a Espanha (de Zapatero) passou a exportar também valores e um modelo de sociedade para o mundo.”

Questionado sobre a oposição de partidos como o PP e sobre as críticas proferidas pela Igreja Católica, Zerollo não hesita “Este debate só veio confirmar que a direita espanhola continua a ser uma direita extrema, que não reconhece a liberdade individual e que, nesta matéria, só está a amplificar aquilo que diz a hierarquia de uma Igreja que se mostra cada vez mais distante da realidade que a rodeia. “Imagine-se o que seria deste país se tivéssemos seguido as ideias da Igreja Católica: não teríamos uma lei que autorizasse a interrupção voluntária da gravidez; não haveria divórcio; nem nada que nos permitisse recorrer às técnicas da inseminação artificial.”

Diário de Notícias

“Maricón” em Guadarrama May 2, 2005

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Rascafría. A 90 quilómetros de Madrid, os casais ‘gays’ são criticados

O café-restaurante Briscas, no centro de Rascafría, uma pequena localidade da serra de Guadarrama, situada a pouco mais de 90 quilómetros de Madrid, parecia prometedor. As pessoas não paravam de entrar e de sair, mostrando que aquele era o centro da vila.

Puro engano, como se podia comprovar por uma placa, colocada em lugar de destaque, no meio das frases já habituais que explicam que o dono do estabelecimento não está ali para fiar aos clientes. “Hace um dia precioso. Verás como viene alguno y lo jode.”

São assim os serranos. Frios, fechados e desconfiados, como explicaria, depois, um madrileno, já reformado, que se instalou em Rascafría, com a mulher, deixando para trás dois filhos já adultos. “Se as pessoas, por aqui, nem quase dão os bons-dias, como é que querem que eles falem com desconhecidos?”

O certo é que o madrileno foi a única pessoa que se disponibilizou para falar sobre a legalização do casamento entre homosssexuais ao longo do percurso efectuado pela serra de Guadarrama.

Os outros, mal percebiam o tema de conversa, fugiam. Especialmente os mais idosos. Um pouco à semelhança do que ocorreu no muito conservador bairro madrileno de Salamanca. Mas, pelo sim pelo não, ainda deixavam escapar “Aqui não há disso. Aqui não há maricónes, nem queremos saber dessas coisas.”

Salvou-se o madrileno. Mas só até um certo ponto. Quando lhe perguntámos o nome, transformou-se num serrano. “Porque é que querem saber? Depois isso sai no jornal, isso não.”

Salvou-se a conversa. Que, curiosamente, começara com um tom de uma certa indiferença. “Para mim, tanto faz. E, além disso, a lei também já foi aprovada.”

Pura aparência. Mais uns minutos de conversa e a língua soltou-se. Afinal, o tão falado casamento entre homossexuais já não lhe era assim tão indiferente. “Dois homens juntos? Duas mulheres? Que sentido é que isso faz? E se houver filhos, ou se os adoptarem, o que é que eles serão? Gays? Lésbicas? Não, isso não me parece nada bem.”

Mais difícil, bem mais difícil, será assistir a um casamento homossexual no Ayuntamiento de Rascafría. Pelo menos pelos tempos mais próximos.

“As pessoas não o permitiriam”, diz, dando algum razão a quem pensa que a esmagadora maioria destes matrimónios acabará por se celebrar em cidades grandes como Madrid ou Barcelona, mas não em terras mais pequenas. Designadamente as da Galiza, Andaluzia, Estremadura ou País Basco.

“Aqui, em Rascafría, se algum maricón se atrevesse a casar, ou sequer a tentar, era capaz de acabar pendurado numa árvore. Isto é uma terra pequena, com pessoas muito tranquilas, onde todos se conhecem.”

Publicado no Diário de Notícias.

‘Gays’ e lésbicas tiveram “sorte com Zapatero” May 2, 2005

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Inquérito. População espanhola entende que a homossexualidade é uma opção sexual e que deve ser respeitada como a heterossexualidade

Dois terços dos espanhóis são a favor dos casamentos homossexuais

“Tivemos sorte com José Luis Zapatero, que é um político especial e que acredita que é necessário alargar os direitos civis.” Quem o diz é Beatriz Gimeno, a presidente da Federação Estatal das Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais espanhola.

Sentada a um canto, mais ou menos recôndito, de um café do centro de Madrid, ninguém diria que esta arquivista do ayuntamiento da capital espanhola é hoje um dos rostos mais mediáticos da campanha que levou os socialistas do PSOE a avançarem com a legalização do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo. Contra a opinião da Igreja Católica, dos ortodoxos gregos, dos evangélicos e dos judeus, para além, naturalmente, de uma parte muito significativa dos partidos da oposição. Especialmente os de direita, com os populares (PP), de Mariano Rajoy, a assumirem um papel de destaque, sem que isso lhes permita, no entanto, disfarçar as divergências existentes no interior do próprio partido.

Como esta semana ficou mais ou menos evidente, quando o presidente da Câmara de Valladollid anunciou publicamente, e na sequência de um apelo à desobediência civil lançado pela Igreja Católica, a intenção de vir a opor-se à celebração dos casamentos civis entre homossexuais, desafiando um dever que lhe é atribuído por lei, o que, naturalmente, provocou um enorme escândalo mediático.

Horas depois, o mesmo autarca acabaria, no entanto, por recuar nas suas intenções, ao perceber que a violação da lei – que deverá entrar em vigor em Junho – implicaria a perda do mandato. Mas, nessa altura, já o presidente da Câmara de Vallodolid tinha sido desautorizado pelos principais autarcas do PP. Com realce para os seus colegas de Madrid, Valência, Málaga e Oviedo, que já garantiram que irão aplicar as novas disposições legais, mesmo que isso os obrigue, até por razões de ordem prática, a delegar a celebração de tais cerimónias nos vereadores.

Nada que impressione Beatriz Gimeno, que, por estes dias, tem vindo a desdobrar-se em sucessivas declarações públicas. “Esta polémica é absolutamente artificial. Grande parte é impulsionada pela Igreja Católica, que aproveitou a eleição do Papa Bento XVI para voltar a dizer o que sempre disse. E o PP apanhou a onda, mas a lei vai entrar em vigor. E ninguém, que o queira, ficará por casar. Isso é evidente.”

A avaliar por aquilo que se observa nas ruas espanholas, Beatriz Gimeno tem razão. Salvaguardadas as declarações de alguns políticos mais ou menos obscuros e as reacções – algumas infelizes – da hierarquia da Igreja Católica de Espanha, este não é um tema que pareça preocupar a generalidade dos espanhóis, para quem o terrorismo, a insegurança e o emprego continuam a ser as principais prioridades.

O que explicaria também os resultados de um inquério realizado há pouco mais de oito meses, quando José Luis Zapatero e o PSOE já estavam no Governo, e no qual dois terços dos espanhóis (66,2%) se declaravam a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Nesse inquérito, efectuado pelo Centro de Investigaciones Sociologicas (CIS), 76,6% dos inquiridos consideravam ainda que a homossexualidade era apenas “uma opção sexual distinta”, enquanto 79% entendiam que era “tão respeitável” como a heterossexualidade.

O que parece dar, outra vez, razão a Beatriz Gimeno, quando, a meio da conversa, realça o facto de a Espanha ser, actualmente, um dos países mais secularizados da União Europeia, dando origem a “uma moral sexual muitíssimo progressista”.

ESTRATÉGIA. Talvez assim se possa compreender melhor o optimismo e a confiança exibidos pelos gays e pelas lésbicas de Espanha, como se comprova andando pelo bairro madrileno de Chueca, dez anos depois de as estruturas mais representativas dos homossexuais do país se terem unido, dando início a uma nova estratégia.

“Optámos por recusar as uniões de facto, insistindo na ideia de que o matrimónio representava um direito de igualdade para gays e lésbicas. Foi por isso que dissemos ao PP, quando José María Aznar estava no Governo, que não queríamos as uniões de facto. Ou avançavam com o matrimónio ou então ficava tudo na mesma. Durante dez anos não falámos em mais nada. A sociedade espanhola habituou-se.”

Quando Zapatero e os socialistas se juntaram à causa tudo ficou mais fácil, tendo o PSOE prometido a legalização dos casamentos homossexuais no seu programa eleitoral, à semelhança do que já foi adoptado pela Holanda e pela Bélgica no quadro da UE. Um ano depois, falta apenas o veredicto do Senado, que deverá ser negativo, sem que isso implique que a lei não possa entrar em vigor, desde que volte a ser confirmada pela Câmara dos Deputados, mesmo que exista já quem invoque argumentos acerca de uma eventual inconstitucionalidade do diploma.

À margem disso, o certo é que o líder socialista cumpriu uma das promessas mais fracturantes do PSOE. “Zapatero”, reconhece Beatriz Gimeno, “é, de facto, um político muito especial, que acredita em causas, que acredita na força das convicções e que defende o alargamento dos direitos civis. E eu até estou à vontade para o dizer, porque não votei nele.”

IRONIA. Dos olhos e da expressão de Beatriz Gimeno, que acabara de chegar de Estrasburgo, onde participou numa acção de sensibilização com vários eurodeputados, preparando-se agora para partir para o Chile, fica a imagem de uma enorme tranquilade. Como se tivesse a noção do dever cumprido e como se a lei pela qual tanto lutou já estivesse em vigor.

Mas aquela que, aos 42 anos, é a lésbica mais famosa de Espanha, como ela própria reconhece, ainda não sabe o que fará quando, finalmente, o Estado lhe permitir casar com a mulher com quem vive há vários anos. “Todos os jornalistas me perguntam isso. Mas o facto é que ainda não decidi se o farei. Terei que conversar com a minha companheira. Mas se me casar, fá–lo-ei em privado. Só com amigos e com a família. Longe dos media.”

Publicado no Diário de Notícias.

Irão os homossexuais casar-se? May 2, 2005

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Bar em chueca. Pablo e Emilio ainda não se decidiram pelo casamento

Pablo Pantin e Emilio Jarrin são homossexuais assumidos. Publicamente assumidos. De copo na mão, e um ar levemente descontraído, Pablo e Emilio formam um dos muitos casais que aproveitam o fim da tarde madrilena para ir até ao bairro de Chueca, uma espécie de versão madrilena do Bairro Alto lisboeta, onde os bares alternam com restaurantes, lojas de roupa e de design e comércio tradicional.

Pablo é jornalista em Ferrol, na Galiza, e Emilio, que já viveu em Lisboa, trabalha como arquitecto, em Madrid. Apesar da distância que os separa, mantêm uma relação estável há quase uma década, o que parece ser uma eternidade para quem anda na casa dos 30 e poucos anos.

Numa conversa muitas vezes interrompida pelos amigos e amigas que vão chegando, numa bodega que parece ser apenas frequentada por grupos de gays e lésbicas, Pablo e Emilio não escondem, claro, a satisfação pela legalização dos casamentos homossexuais.

“É uma questão de direito”, sublinha Pablo, enquanto Emilio se afasta para saudar mais uns amigos. “Já não os via há uns tempos”, desculpa-se. Pouco depois é a vez de Emilio ir cumprimentá-los, e Pablo regressa, assumindo-se um pouco como uma espécie de anfitrião da casa, num momento em que à nossa volta já há quem não consiga esconder as suas afeições. Sem que ninguém se sinta especialmente incomodado.

Durante uns minutos, discutimos o impacto da lei e a reacção da sociedade espanhola. Pablo e Emilio parecem ter pontos de vista divergentes sobre a matéria. Tudo por causa da expressão “matrimónio”, que segundo Pablo deriva de um conceito com uma tremenda carga religiosa. “Se lhe chamassem outra coisa já ninguém se importaria.” Horas antes, o mesmo tema tinha preenchido já grande parte das reacções de duas heterossexuais madrilenas Pilar Arribas e Laura Berdejo, uma mãe e uma filha, com perspectivas muito diferentes sobre esta matéria.

Dando razão a Pablo, Pilar pouco se importa com os casamentos homossexuais. Com uma única excepção que lhes chamem “matrimónios”, um termo que Laura ajuda a descodificar. “O matrimónio representa para nós, espanhóis, e em especial para uma certa geração, uma espécie de sacramento religioso. Daí que isso choque algumas pessoas.”

Pouco importa. Casamento ou matrimónio, o facto é que estas relações passarão a ser legais.

Mais complicado, bem mais complicado, é saber o que farão Pablo e Emilio. Irão casar-se?

Aproveitando a ausência momentânea de Pablo, Emilio responde, matreiro “Se me pedirem…” Quando a situação se inverte, é a vez de Pablo: “Não sei. Para mim, o casamento não me diz nada. Não preciso de papéis para ser feliz.”

Publicado no Diário de Notícias.

JSD de Leiria quer casamento entre homossexuais na agenda política May 1, 2005

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Por Alexandra Barata

A JSD de Leiria vai lançar um debate a nível interno sobre o casamento entre homossexuais, com o objectivo de apresentar um projecto em prol dos direitos humanos, anunciou João Costa, presidente daquela estrutura política, no final de um encontro intitulado JSD debate-se: casamento entre homossexuais, que decorreu ontem em Leiria.

Determinado a introduzir o assunto na agenda política, João Costa lamentou que os conselhos executivos das escolas secundárias e os presidentes das escolas do ensino superior de Leiria se tenham recusado a divulgar a iniciativa, com o argumento de que se tratava de um debate político-partidário ou um tema sem pertinência para os alunos.

Além dos obstáculos na divulgação do debate, o presidente da JSD de Leiria não escondeu a dificuldade em conseguir encontrar oradores heterossexuais disponíveis para participar no encontro. “É quase inédito uma estrutura de Direita estar a debater este tema, mas a iniciativa é de respeitar e apoiar”, observou.

A este propósito, João Costa defendeu a necessidade de debater o tema, não só por entender estar na ordem do dia como por não lhe ser dado o “respeito e consideração” que merece. “O debate nas legislativas foi mau e irresponsável. O PSD também não esteve à altura. Também não se portou bem. Transformou-se uma questão problemática numa bandeira eleitoral, à qual só é dada atenção na altura das campanhas eleitorais. Ficámos a olhar para o vazio”, afirmou.

O presidente da Opus Gay, António Serzadelo, associou-se ao presidente da JSD ao afirmar que a luta dos homossexuais é em defesa dos “novos” direitos humanos, que todos deveriam apoiar, e não uma luta de esquerda. “Também há muita homofobia no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda”, assegurou. “Estamos a discutir um tema que tem a ver com o futuro, com uma sociedade mais democrática, mais solidária, onde não haja tanta exclusão social”, afirmou Serzadelo, que salientou que a hostilidade não afecta apenas os homossexuais, mas também as mulheres, deficientes, ciganos, idosos, imigrantes de Leste e de origem africana. “Este é um país que fabrica muitas exclusões sociais. Põe muita gente à margem”, acusou.

Embora seja casado com uma mulher, António Serzadelo assumiu-se como homossexual e defendeu a necessidade de alterar a lei portuguesa, no sentido de permitir que pessoas do mesmo sexo possam estabelecer um contrato social, que possa ser anulado quando as partes se deixarem de entender.

João Paulo, do movimento Portugal Gay, congratulou-se por a lei que reconhece as uniões de facto ter sido aprovada com votos favoráveis da JSD. Mas lamentou que não tenha previsto que os homossexuais possam ser herdeiros dos bens do companheiro, decidir o destino a dar ao corpo do companheiro após a sua morte ou ter prioridade nas visitas hospitalares. “O 25 de Abril foi há 31 anos. Após este tempo todo, ainda temos gente em Portugal à espera que a revolução lhes bata à porta”, disse.

O debate contou ainda com as intervenções de um advogado heterossexual e de dois homossexuais que procuraram outros países para formalizar as suas relações com indivíduos do mesmo sexo, através do casamento. O presidente da Associação Pais Para Sempre, João Mouta, contou que esteve casado dez anos com uma mulher, da qual tem uma filha de seis anos, que vive com ele e com o seu marido, Fernando. Em resposta a uma pergunta da assistência, assegurou que a filha encara a sua relação com naturalidade, pois percebeu que existia um “relacionamento profundo” entre ambos. “É o comportamento do indivíduo que leva à sua própria aceitação”, sustentou. A sua experiência permite-lhe, por outro lado, garantir que as crianças educadas por casais de homossexuais em nada diferem das crianças educadas por casais de heterossexuais.

Apesar de a assistência se limitar a 25 pessoas, o debate entre os cinco oradores suscitou muitas perguntas do público, maioritariamente jovens. António Serzadelo esclareceu a dúvida que terá invadido todos os presentes no encontro quando anunciou que era casado com uma mulher, apesar de ser homossexual. “Não imagina quantos milhares de homens são casados com mulheres e elas nem sonham que eles têm uma vida dupla. Há milhares de homens casados, o que não fará deles heterossexuais”, confidenciou.

Publicado no Público.