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A (In)Tolerância February 6, 2006

Posted by igualdadenocasamento in Artigos de Opinião, Portugal.
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Por Cristina Figueiredo

Se descontarmos os rios de tinta e imagens que a visita de Bill Gates mereceu na Imprensa portuguesa, podemos resumir a semana passada a dois acontecimentos que só aparentemente não têm nada a ver um com o outro: no plano internacional, a grave crise diplomática provocada pela publicação dos cartoons dinamarqueses do profeta Maomé; no nacional, a pretensão ao casamento entre duas pessoas do mesmo sexo.

Um e outro, nas suas dimensões incomparáveis, têm em comum a mesma questão de fundo: a tolerância ou, de outra perspectiva, a falta dela.

Que com a religião não se brinca já todos devíamos ter percebido (a história está, e vai continuar a estar, repleta de exemplos). Se se misturar religião com petróleo e armas nucleares o resultado só pode ser o que está à vista: explosivo. Ganharíamos em contextualizar as coisas, em olhar mais longe do que o que nos entra pelos olhos dentro.

Já o sexo (e dentro desta designação genérica, o comportamento homossexual) é um dos mais ricos alfobres de anedotas para quem gosta e sabe inventá-las. O tema só se torna sério, e mesmo assim a custo, quando ganha foros de questão legal e/ou constitucional, como sucedeu na semana passada, graças à coragem do casal de lésbicas que deu rosto à causa e assim fez toda a diferença em relação a vezes anteriores em que o assunto não passou de «iniciativa política» deste ou daquele grupo necessariamente de esquerda.

Todos os argumentos podem ser esgrimidos, a favor e contra a publicação dos cartoons, a favor e contra o casamento entre homossexuais. Eu tenho as minhas dúvidas em relação à primeira questão (embora a minha costela jornalística faça lóbi pela publicação). E sou a favor no que diz respeito à segunda. Mas curiosamente, ambas as polémicas levam-nos à mesma reflexão civilizacional: Até que ponto nós, ocidentais por nascimento, democratas por cultura (a maior parte, pelo menos), toleramos a diferença? Não aceitamos (e justamente) que nos invadam as embaixadas e nos queimem as bandeiras, que nos cerceiem a liberdade de expressão. E, no entanto, aceitamos que se brinque com a religião (dos outros). Não aceitamos (e justamente) que nos imponham o casamento, que nos inviabilizem os divórcios, que se metam na nossa vida. E, no entanto, recusamos o direito a uma opção sexual diferente.

Suportamos mal a diferença, reconheçamo-lo. Para não dizer, simplesmente, que não nos suportamos uns aos outros. O mundo, às vezes, é um sítio insuportavelmente pequeno.

Expresso

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