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As causas do jornalismo March 4, 2006

Posted by igualdadenocasamento in Artigos de Opinião, Petição da ILGA, Portugal, Teresa & Helena.
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Por Fernanda Câncio

Alguns comentadores (re)descobriram, com escândalo, o terrífico poder do agendamento mediático. Um poder cuja particular perversidade lhes surge inversamente proporcional à sua identificação com as “agendas” em causa, evidentemente.

Destes tácticos escândalos está, como é sabido, cheia a História. É agora a vez da “agenda LGBT (lésbica, gay, bissexual e transexual)” e das reacções que a crescente visibilidade das suas causas vão suscitando. A mais pungente vem do director do Público, que, no afã de denunciar o tenebroso conluio entre tais esconsos objectivos e o que apelida de “valores do jornalismo dominante”, encontra no jornal Expresso (um famoso reduto da comunidade LGBT e outras modernices, como é sabido) e no DN exemplos da “montagem de uma agenda política” que, a seu ver, culminou na tentativa de casamento (“montada”, claro) de duas mulheres, ocorrida a 1 de Fevereiro.

Que José Manuel Fernandes (JMF) tenha iniciado a sua corajosa denúncia não no jornal em cujo cabeçalho é referido como director mas numa obscura revista mensal, prosseguindo o seu valoroso intento em entrevista a O Independente, demonstra bem o poder de condicionamento da dita agenda – afinal, em que mundo vivemos quando alguém se sente coibido de opinar sobre um assunto no jornal que supostamente dirige?

Significativo também é que JMF tenha escolhido como exemplo da dita “montagem” aquilo que reputa de “mau jornalismo” do Expresso – uma manchete de Dezembro declarando a existência de um milhão de homossexuais em Portugal a partir de uma sondagem com óbvias debilidades – e o facto de vários jornalistas do DN terem assinado uma petição a favor da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ignorando o acaso, público e notório, de ter sido o jornal que aparentemente dirige o primeiro a dar amplo destaque (que chegou a foto que ocupava quase toda a capa, com as duas mulheres de mão dada) à tal tentativa de casamento que tinha, frisa, “todos os ingredientes para pôr um certo jornalismo a salivar” e cujo objectivo – inconfesso e secreto, claro – seria “obter larga cobertura mediática”.

Na citada entrevista a O Independente, porém, JMF explica-se: afinal, não se refere ao Público porque ali “o trabalho foi sempre bastante equilibrado”. Ou seja, afinal o problema não estava no nível de salivação nem na extensão da cobertura dada ao caso. Não: o problema, explica JMF, é o jornalismo “assumidamente de causas”. Isso, sim, faz-lhe “confusão”. Mas ressalva: o problema não é um jornalista ter opinião, e expressá-la, sobre as coisas sobre as quais escreve. (Ele, por exemplo, lá adianta ser “contra o casamento homossexual nos termos radicais em que os militantes da causa o querem institucionalizar” – o radicalismo, bem entendido, de o fazer casamento como os outros).

O que confunde JMF é a “falta de transparência das petições” assinadas por jornalistas que assumem “sem pejo” as suas opiniões e escrevem sobre esses assuntos – e dá-me como exemplo. É uma tolice um bocadinho contraditória isto que diz JMF, mas percebe-se aonde ele quer chegar. Como não o vimos até agora afirmar que os jornalistas do DN, eu incluída, que assinaram a dita petição fazem mau jornalismo (qualificativo que não negou ao Expresso), só se pode concluir que para JMF o problema, afinal, está em haver jornalistas que assumem opiniões e causas que lhe fazem, por razões que só ele sabe, confusão e que, ainda por cima, começam a ter acolhimento no mainstream.

Em causa, afinal, estão as causas de JMF e as suas campanhas pessoais (e pessoalizadas) – e talvez o facto de não ter presente que entre as motivações mais nobres do jornalismo está, historicamente, a denúncia das injustiças e a luta por uma sociedade mais livre. Mas fica a sugestão: que ao lado dos textos de cada jornalista se afixe um rol dos seus vários interesses, tipo, além das petições assinadas, em quem votou, em quem vai votar, por que clube torce, que pseudónimos usa quando escreve sobre automóveis (o de JMF é José Almeida Tavares), em quantas manifestações contra Santana participou, em que organizações maoístas radicais militou na juventude e, já agora, que fobias o fazem sair do sério. A bem da transparência.

Diário de Notícias

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Público parece a Al Jazeera February 28, 2006

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José António Lima, ex-director adjunto do ‘Expresso’, responde ao director do ‘Público’. José Manuel Fernandes acusara o semanário de “mau jornalismo” num artigo de opinião publicado ontem na revista ‘Atlântico’ e que o CM antecipou sexta-feira. Em causa estava a leitura que o ‘Expresso’ fizera de uma sondagem sobre a sexualidade dos portugueses.

O artigo de José Manuel Fernandes (JMF) na revista ‘Atlântico’ suscita alguns comentários sobre oportunidade, credibilidade e seriedade.

1. Quanto a oportunidade jornalística e agenda política. Depois da legislação aprovada em Espanha pelo Governo socialista de Zapatero, no que respeita ao casamento entre homossexuais, e depois da formação, em Portugal, de um Governo socialista de maioria absoluta liderado por José Sócrates, tornava-se óbvio que o tema do alargamento dos direitos dos homossexuais seria, a curto prazo, colocado na agenda política.

Bastava, para o perceber, ter a noção de que um Governo de esquerda (em Portugal como em qualquer democracia ocidental, os exemplos não faltam) que se vê forçado a levar à prática uma política de austeridade e de restrição de ‘direitos adquiridos’ se sente obrigado, para compensar as críticas da sua base de apoio e atenuar o descontentamento do seu eleitorado, a aprovar medidas ideologicamente radicais que marquem uma fractura clara entre esquerda e direita. Com o exemplo espanhol aqui ao lado e o Governo Sócrates a braços com os protestos do funcionalismo público e outras corporações, amplamente representadas no interior do PS, estava na cara qual iria ser um dos temas da agenda política socialista.

O ‘Expresso’ apenas revelou capacidade de antecipar o debate e de apresentar um estudo, inédito e credível, sobre os hábitos sexuais dos portugueses e o problema da homossexualidade. Fê-lo antes dos outros e de acordo com as regras do bom jornalismo.

2. A credibilidade da sondagem realizada pela empresa Eurosondagem para o ‘Expresso’ não é questionável e apresenta uma detalhada ficha técnica que deveria impedir quaisquer dúvidas. Foram feitas entrevistas directas e pessoais (não telefónicas) a 726 portugueses maiores de 15 anos, uma amostra que não é inteiramente correspondente com a população em estudo mas que fornece um resultado muito aproximado. E o facto de se ter registado uma elevada taxa de recusa de respostas (em particular, entre a população mais idosa) não anula a representatividade da amostra. Pode até permitir análises complementares para qualquer dos pontos de vista em oposição nesta matéria.

Ao invés de olhar para a sondagem como um contributo positivo para a inevitável discussão que em breve se iria abrir, JMF resolve culpá-la por todos os males que o inquietam. Preferiria, ao que se percebe, que ninguém se tivesse lembrado de a realizar.

3. Não é sério nem bonito JMF criticar outros jornais esquecendo o papel do ‘Público’ no tema que aborda. É verdade que o ‘Público’ é um jornal peculiar (costumo dizer, por graça, que parece a Al Jazeera dirigida por Donald Rumsfeld, e já o disse a JMF), mas o seu director não pode querer dar lições de moral e de ‘bom jornalismo’ aos outros, ignorando o que se passa em sua casa.

E, no ‘caso da Teresa e da Lena’, como se lhe refere JMF, foi o ‘Público’, se não me engano, o primeiro jornal a dar ampla e simpática divulgação à encenação de casamento desse casal homossexual feminino (seria, política e esteticamente menos correcto, pegar num casal homossexual masculino) e, desse modo, de acordo com a tese de JMF, a promover uma agenda política particular. Ou não foi?”

Correio da Manhã

O Carnaval dos homofóbicos February 27, 2006

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Por Joana Amaral Dias, psicóloga

1. A homossexualidade não é natural, como a pílula ou os canais televisivos para adultos. Aliás, toda a sexualidade humana não é natural, já que a espécie copula de Janeiro a Dezembro, coisa rara e nunca vista, mesmo nos primatas superiores. Vejam se o orangotango, o macaco rhesus e o chimpanzé lá são capazes de tais proezas;

2. O casamento de homossexuais destrói a instituição. Os divórcios, as separações e as uniões de facto, também. Exceptuam-se as anulações decretadas pelo poder papal que servem para proteger e dignificar o matrimónio;

3. O casamento é uma instituição milenar, logo não pode ser alterado, devendo manter-se a subjugação da mulher. Exceptuam-se os malvados da Igreja Anglicana, que mudaram os seus bons costumes graças às urgentes paixões de Henrique VIII, o que custou a cabeça a Thomas Moore. Face ao matrimónio, não há utopia que nos salve;

4. O casamento de homossexuais cria um precedente para todo o tipo de comportamentos inaceitáveis: poligamia, incesto e o enlace nupcial com animais. Estudos empíricos mostram que a assunção da homossexualidade conduz a uma inevitável exposição pública de bizarrias, como um coronel inglês beijando na boca uma caniche, em Trafalgar Square. Cada vez que se muda uma prática civilizacional, passa a valer tudo. O sufrágio universal foi acompanhado pelo direito de voto dos recém-nascidos, dos animais e das plantas. A abolição da pena de morte implicou o passeio impune dos assassinos. O fim da escravatura levou à saída dos porcos dos currais.

5. O casamento de homossexuais não deve ser legalizado porque, sendo recente em vários países, não podemos aferir as suas consequências. A mesma razão deveria ter impedido essa coisa indesejável chamada Revolução Francesa, que introduziu conceitos como Liberdade (!), Igualdade (!!) e Fraternidade (!!!), noções que até aí não tinham sido experimentadas;

6. O casamento homossexual não pode ser válido porque não gera bebés. Tal como os casamentos de casais inférteis, idosos ou casais que simplesmente não querem ter filhos;

7. O casamento homossexual deve permanecer interditado porque duas pessoas do mesmo sexo não podem educar crianças. Como se sabe, todos os homossexuais são filhos de homossexuais. Do mesmo modo, devem ser proibidas as famílias monoparentais, mesmo em caso de viuvez.

Diário de Notícias

E se ganhássemos todos? February 11, 2006

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Por Miguel Vale de Almeida

Imaginemos as nossas vidas depois da alteração do Código Civil permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desde logo, todos os casais de pessoas de sexo diferente continuarão a poder casar-se, “pelo religioso” ou “pelo civil”. Se não desejarem casar-se, essas pessoas poderão optar, como hoje, por viverem juntas e reivindicar os direitos associados à união de facto. Todas essas pessoas continuarão a poder escolher a sua forma de vida em conjunto, os direitos e deveres associados às diferentes opções, e o prestígio e valor simbólico que os seus valores associem a essas opções.

A única diferença é que cerca de dez por cento dos seus concidadãos e concidadãs passarão a poder usufruir das mesmas escolhas (excepto, obviamente, do casamento católico, pois essa religião não o permite); dos mesmos direitos e deveres; do prestígio e valor simbólico que os seus valores atribuam a cada opção. Os noventa por cento continuarão a viver as suas vidas como hoje, incluindo todas as variações já existentes: divórcios, monoparentalidades, recomposições familiares, etc. Nem uma ínfima porção dos seus direitos será posta em causa. Em contrapartida, os outros dez por cento passarão a estar em pé de igualdade e deixarão, na lei, de ser párias.
A isto chama-se progresso? Sem dúvida. Mas também se chama democracia; também se chama direitos, liberdades e garantias iguais; e, sim, obediência à Constituição e ao seu princípio de não discriminação. A reivindicação da igualdade no acesso ao casamento coloca-se na esteira de reivindicação mais antigas, dos direitos civis para os negros em países onde havia discriminação legal, ao direito de voto para as mulheres. Acresce que a discriminação dos gays e lésbicas é sentida no mais íntimo das pessoas; por ser sexual, esta forma de discriminação ultrapassa-se, em grande medida, justamente no plano dos ordenamentos conjugais e familiares. É por isso também que, para alteração da situação actual, não é preciso esperar por uma “mudança de mentalidades” nem uma “sociedade preparada” – a não ser, claro, que se tema perder votos.

Curioso é verificar que também os argumentos contra a alteração do Código Civil se colocam na esteira dos outrora esgrimidos contra a emancipação dos negros ou a igualdade legal entre homens e mulheres. É por isso que esta é uma questão política, muito mais do que uma questão a ser resolvida pelos tribunais. E, no campo político, não deveria sequer seguir a clivagem esquerda-direita. A discriminação dos gays e lésbicas face ao casamento é mesmo a última discriminação consagrada pela lei portuguesa. Pena é que, entre nós, dado o conservadorismo aflito e tantas vezes cobarde da nossa classe política (nomeadamente à esquerda), tenha que ser muitas vezes a esquerda mais radical a defender aquilo que, afinal, é uma questão de puro e simples liberalismo.

Há anos que defendo publicamente – nos media, no associativismo, na política – a alteração da lei. Tenho-o feito assumindo-me sempre como homossexual. Também na minha actividade de investigação comecei recentemente a trabalhar sobre este assunto. Estive em Espanha em 2005 fazendo pesquisa sobre o debate público em torno da alteração do Código Civil espanhol. Tive a oportunidade de conhecer muita gente que, pelas mais variadas razões, queria casar-se: porque acreditavam no valor simbólico da instituição (conheci casais de lésbicas e gays católicos), porque queriam usufruir de direitos concretos que as uniões de facto não concedem, ou por uma mistura destas e outras razões. Mas o que toda a gente queria era a possibilidade de escolher em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos. Escolher casar ou não. E, ao ter esta escolha, toda a gente o que queria era ser dignificada. Justamente o que os detractores da mudança legislativa não querem.

Daí a importância do casamento. Soluções de segunda – como as nórdicas, a britânica, a francesa, ou as que alguns representantes do centro fraco da política portuguesa (do PSD ao PS) propõem – são, a meu ver, um insulto. Instituiriam um privilégio intolerável em democracia: só os casais de pessoas de sexo diferente poderiam usufruir do casamento. E daí, também, a importância da decisão política na sede própria, o Parlamento: a mera hipótese de referendar direitos e liberdades deveria envergonhar quem, considerando-se democrata, a coloque sequer. Por outro lado, argumentos supostamente radicais, contra o casamento em si, e obrigando gays e lésbicas a serem os “revolucionários” e bobos da corte da nossa sociedade não merecem sequer comentário. São da ordem da mera opinião – mas com consequências discriminatórias.

Por tudo isto, quem propõe soluções legais específicas para gays e lésbicas – sem noção de estar a propor um regime de apartheid? – ou a continuação da presente desigualdade socorre-se de vários fantasmas. Um deles é o de que a alteração da lei abrirá portas para coisas como a poligamia ou o incesto. Será preciso dignificar este “argumento” (que não percebe sequer o que é a nossa cultura amorosa) com uma resposta? As limitações ao direito a casar prendem-se todas com questões de desigualdade e de ausência de consentimento informado; todas, menos a proibição de duas pessoas de sexo igual casarem-se. O outro fantasma é o das crianças e da adopção. Acontece que conjugalidade, procriação e parentalidade não vão necessariamente juntas. Podem ser decididas – pelas pessoas e pela lei – separadamente, porque são praticadas separadamente. Defendo o modelo espanhol, com direitos iguais, incluindo o de adopção; com base nos pareceres dos colégios profissionais internacionais; mas, sobretudo, com base na realidade existente: muitos gays e lésbicas têm filhos, podem ter filhos, e já adoptaram. Conheço muitos nessa situação, e conheço as suas crianças, tão felizes como as de famílias cuja capacidade parental não foi sequer avaliada por ninguém. Nos EUA, o movimento pelo casamento chegou mesmo a ser o resultado das exigências de famílias de gays e lésbicas com filhos biológicos ou adoptados (quase 200.000 famílias de casais do mesmo sexo com crianças no ano 2000), e não o contrário.

Espero que as hesitações aflitas e provincianas dos nossos representantes políticos não radiquem no puro preconceito de um difuso “nojo” face à homossexualidade, produto de um recalcado e, esse sim perverso, erotismo. Como tentei mostrar acima, com a igualdade ninguém perde nada. Ganhamos todos.

Antropólogo, dirigente do Bloco de Esquerda

Público

Casamentos e seguros February 8, 2006

Posted by igualdadenocasamento in Artigos de Opinião, Portugal, União de Facto.
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Imagine que, para circular na via pública, a lei lhe exigia, ao invés do seguro contra terceiros, um seguro contra todos os riscos. Acharia bem?

Por Tiago Mendes

Seguramente que não. Pois é isto que se pretende fazer no “mercado das relações”. Ultimamente, há muito quem reclame maior aproximação da união de facto ao casamento – sem perceber, ou sem valorizar, o atentado à liberdade de escolha que isso representa. A analogia proposta não é exagerada. As figuras “casamento” e “união de facto” são, para além de tudo o resto que não cabe aqui, um contrato de seguro, onde ambas as partes pagam um “prémio” – os deveres perante o outro – pelo direito a uma determinada “assistência” futura. A primeira oferece benefícios superiores e tem, consequentemente, um “preço” mais elevado. A segunda só faz sentido existir se constituir uma proposta suficientemente distinta.

Há cinco grandes diferenças a reter entre as duas. Da união de facto não decorre: um regime de comunhão de bens ou de adquiridos, a partilha de responsabilidade sobre dívidas contraídas a título individual, o direito sobre a quota indisponível da herança, a faculdade de adopção do nome de família da contraparte e a alteração do estado civil. As três primeiras, como as duas últimas, estão altamente correlacionadas entre si: aceitando uma, aceitar-se-iam as outras. Podemos, por isso, agrupá-las em duas categorias gerais – “independência financeira” e “vínculo social”. Se compreendermos que a necessidade de uma diferente visibilidade social, seja através do apelido partilhado ou do “rótulo” aposto no bilhete de identidade, tem de ser acompanhada de algo mais substantivo, como a independência financeira, concluíremos estar perante uma diferenciação “mínima” face ao casamento.

Há um outro ponto que é geralmente incompreendido: o valor que advém da impossibilidade de certas coisas poderem ter lugar. Em situações estratégicas, ter menos é, por vezes, melhor. Existe valor acrescentado na inaplicabilidade do regime de partilha de bens à união de facto porque isso não é “interpretável” como seria no casamento – por, precisamente, não ser uma opção. Mais grave, no entanto, é o paternalismo de quem fala na “precaridade” de direitos quando há possibilidade de escolha do casal. Sendo certo que isto não se aplica a duas pessoas do mesmo sexo, importa ter presente que a necessidade de mudança do quadro legislativo que versa os relacionamentos homossexuais não deve pôr em causa os actuais contornos da união de facto. Além de frustrar expectativas passadas, essa alteração restringiria o “menu” de escolhas relacionais no futuro. E – convém lembrar – nem todos preferem seguros contra todos os riscos.

Tiago Mendes, Doutorando e Tutor em Economia na Universidade de Oxford

Diário Económico

A (In)Tolerância February 6, 2006

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Por Cristina Figueiredo

Se descontarmos os rios de tinta e imagens que a visita de Bill Gates mereceu na Imprensa portuguesa, podemos resumir a semana passada a dois acontecimentos que só aparentemente não têm nada a ver um com o outro: no plano internacional, a grave crise diplomática provocada pela publicação dos cartoons dinamarqueses do profeta Maomé; no nacional, a pretensão ao casamento entre duas pessoas do mesmo sexo.

Um e outro, nas suas dimensões incomparáveis, têm em comum a mesma questão de fundo: a tolerância ou, de outra perspectiva, a falta dela.

Que com a religião não se brinca já todos devíamos ter percebido (a história está, e vai continuar a estar, repleta de exemplos). Se se misturar religião com petróleo e armas nucleares o resultado só pode ser o que está à vista: explosivo. Ganharíamos em contextualizar as coisas, em olhar mais longe do que o que nos entra pelos olhos dentro.

Já o sexo (e dentro desta designação genérica, o comportamento homossexual) é um dos mais ricos alfobres de anedotas para quem gosta e sabe inventá-las. O tema só se torna sério, e mesmo assim a custo, quando ganha foros de questão legal e/ou constitucional, como sucedeu na semana passada, graças à coragem do casal de lésbicas que deu rosto à causa e assim fez toda a diferença em relação a vezes anteriores em que o assunto não passou de «iniciativa política» deste ou daquele grupo necessariamente de esquerda.

Todos os argumentos podem ser esgrimidos, a favor e contra a publicação dos cartoons, a favor e contra o casamento entre homossexuais. Eu tenho as minhas dúvidas em relação à primeira questão (embora a minha costela jornalística faça lóbi pela publicação). E sou a favor no que diz respeito à segunda. Mas curiosamente, ambas as polémicas levam-nos à mesma reflexão civilizacional: Até que ponto nós, ocidentais por nascimento, democratas por cultura (a maior parte, pelo menos), toleramos a diferença? Não aceitamos (e justamente) que nos invadam as embaixadas e nos queimem as bandeiras, que nos cerceiem a liberdade de expressão. E, no entanto, aceitamos que se brinque com a religião (dos outros). Não aceitamos (e justamente) que nos imponham o casamento, que nos inviabilizem os divórcios, que se metam na nossa vida. E, no entanto, recusamos o direito a uma opção sexual diferente.

Suportamos mal a diferença, reconheçamo-lo. Para não dizer, simplesmente, que não nos suportamos uns aos outros. O mundo, às vezes, é um sítio insuportavelmente pequeno.

Expresso

A melhor estratégia July 2, 2005

Posted by igualdadenocasamento in Artigos de Opinião, Marcha LGBT, Portugal.
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Crónica Feminina

Por Inês Pedrosa

«(…) Who goes to bed with what/
Is unimportant. Feelings are important./
Mostly I think of feelings, they fill up my life/
Like the wind, like tumbling clouds/
In a sky full of clouds, clouds upon clouds.»
( John Ashbery)

A melhor estratégia é não ter estratégia. Quando a estratégia é postiça em relação à mensagem que se pretende transmitir, acaba por estalar, como verniz velho – e, o que é pior, acaba por corromper a própria mensagem, porque o público-alvo acaba por se sentir enganado. Isto é válido para públicos compostos por um ser humano como para multidões: para dar um exemplo corriqueiro, se o Joãozinho se apaixona por nós porque soubemos fazer de conta que éramos umas vampes indiferentes como a Mariazinha por quem ele se embeiçou antes, vai fartar-se de nós no dia em que descobrir que somos umas fogosas apaixonadas. Se formos um bocadinho inteligentes, acabaremos por descortinar que o Joãozinho é apenas uma fruste perda de tempo: afinal, quem quer amar alguém que não sabe amar perdidamente? Estratégias leva-as o vento, e o que fica, de uma maneira ou de outra, é o resíduo da nossa verdade. Ninguém aguenta sentir-se enganado; qualquer verdade ingrata é pior do que uma mentira grata, e a mentira, neste país em forma de mesa de repasto, tem a pernita curta.

Quando me convidaram para apadrinhar a Marcha Gay e Lésbicadeste ano, logo uma sequência de vozes familiares e amigas se erguerampara me dizer uma destas três coisas, ou todas elas: a) que uma marcha éuma má estratégia de defesa de direitos porque expõe muito as pessoas; b) que aparecer ao lado «deles» (suponho que queriam dizer «essa gente diferente e de maus costumes») prejudicaria a minha «imagem»; c) que ao Rui Zink não faria mal, porque é homem, mas que, sendo eu mulher, tinha que pensar na minha «reputação».

No fundo, não é de espantar: a Marcha ocorreu no fim da mesma semana em que múltiplas e supostamente democráticas vozes vieram dizer que o direito à greve fenece quando a dita greve prejudica «os mais fracos» – no caso, os estudantes. Estabeleceu-se mesmo uma nova noção de «serviços mínimos» que abrange os exames. Pergunto: se os estudantes fizerem exames uma semana mais tarde, já esqueceram a matéria toda? Alguma greve alguma vez prejudicou apenas «os mais fortes»? Para que serve uma greve que não prejudica ninguém? Claro: se o governo que assim se move contra o direito à greve fosse assumidamente de direita, já estaria o povo todo, comentadores incluídos, a bradar que o fascismo estava de regresso. Como se trata de um governo do Partido Socialista, arranjam-se milhares de justificações. O meu irmão costuma dizer que «só justifica quem perde». Considera-se que uma Marcha é uma alegria popular se for para dançar o vira ou para clamar por abstracções, como a «Paz». Mas se for para lutar por direitos – como esse, tão concreto, tão constitucional, do casamento civil entre pessoas que se amam, independentemente do sexo – já é uma pouca-vergonha. Incomoda, porque aparecem sempre uns travestis emplumados. As heterossexuais nuas que surgem nos desfiles de carnaval são consideradas espectáculo de família. Porque é que um transexual incomoda tanta gente? A mim, o que me incomoda é que Portugal seja ainda tão pouco exibido, tão cheio de entrementes, bichanices covardes, esquemas ocultos… enfim, estratégias. E lá fui marchar.

Pude assim verificar in loco que as plumas e pailletes que tanto perturbam o sossego familiar das famílias ditas tradicionais se resumiam, numa marcha de quinhentos seres humanos, a meia dúzia de pessoas. Aproveitam o pretexto para ter os seus cinco minutos de glória e promover os seus shows. Tomar os travestis como paradigma homossexual é tão disparatado como considerar o Avelino Ferreira Torres da Quinta das Celebridades como modelo dos autarcas portugueses. Parecem sempre muitas, estas figuras folclóricas, nas televisões, porque é sobre elas que as câmaras caem – e evidentemente que entrevistar travestis sobre o casamento ou a adopção por homossexuais só serve para assustar a população e criar mais homofobia. Pude também verificar que, se há ainda pouca gente para marchar por estes temas de direitos humanos, há muita gente disposta a engrossar a marcha dos voyeurs, seguindo o cortejo, no recato do passeio, de câmara em punho, avenida abaixo. Com tristeza verifiquei ainda a total ausência das figuras gradas da política. Não estranhei a ausência do Presidente da Câmara até porque, como Rui Zink explicou à SIC, ninguém sabe quem é actualmente o Presidente da Câmara de Lisboa. Mas onde se meteram, nesta tarde de luta pela não discriminação, todos os estrénuos democratas do país?

Outras vozes, um pouco mais elásticas, aconselharam-me a que discursasse sempre e só a favor do casamento e nunca a favor da adopção – porque esse é terreno estrategicamente minado: «Que se casem, está bem, mas que adoptem crianças já não me parece bem porque as crianças ficam marcadas…». Este discurso é igual, no tom e no conteúdo, àquele outro que reza assim: «Eu não sou racista, mas não gostava que a minha filha se casasse com um negro, porque os filhos deles iriam ser discriminados…». Quantas crianças vivem só com a mãe? E aquelas – as da Casa Pia, por exemplo – que nunca conheceram pai nem mãe? E as Vanessas e Joanas que são brutalizadas e mortas pelos pais? Normalmente, os homossexuais e lésbicas têm irmãos heterossexuais – o que prova que a orientação sexual não depende da educação. Se a adopção por casais do mesmo sexo estivesse instituída, as crianças não se sentiriam discriminadas por terem uma família «diferente». Claro que não se pode entregar uma criança de ânimo leve – mas são os valores e o estilo de vida dos adoptantes o que interessa, não a sua orientação sexual. Pensem. Se todos fizéssemos um esforço por pensar clara e livremente, libertando-nos do peso fatídico das ideias feitas, Portugal seria um outro país – muito mais justo, e tão belo como a Avenida da Liberdade, cheia de gente unida pelo direito ao Amor, numa tarde de sol e vento.

Única